terça-feira, 1 de junho de 2010

Ensino e Tecnologia

As sereias do ensino eletrônico

Paulo Blikstein
paulo@media.mit.edu
Pesquisador no Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Mestre pelo MIT Media Lab; engenheiro e mestre em engenharia pela Escola
Politécnica da USP.
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Marcelo Knörich Zuffo

mkzuffo@lsi.usp.br
Professor livre-docente do Departamento de Sistemas Digitais da Escola
Politécnica da USP. Engenheiro, mestre e doutor pela Escola Politécnica da
USP.
Texto baseado em dissertação de Mestrado apresentada à Escola Politécnica da USP em 2001.
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Resumo


As novas tecnologias têm um grande potencial para trazer grandes mudanças à educação.

Entretanto, vemos que o paradigma da educação tradicional tem preponderado em um grande número de experiências, com o simples encapsulamento de conteúdo instrucional em mídias eletrônicas, apesar do discurso capturado de educadores progressistas.
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Possíveis causas e conseqüências desse processo são discutidas, como a integração da
educação ao universo do consumo de massa, as demandas do novo mundo do trabalho à universidade e as promessas da educação on-line. Ao final, propomos princípios para a construção de ambientes de aprendizagem alternativos, utilizando as tecnologias como matéria-prima de construção e não só como mídia de transmissão de informações.

1. Ulisses revisitado

O segredo dos maiores escritores sempre foi um exercício de simplicidade: penetrar, com modéstia e determinação, naqueles poucos e recorrentes dilemas fundamentais da existência humana: amor, ódio, inveja, desejo, poder, paixão.
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Não é por acaso que suas
obras continuam intactas, atuais e perturbadoras, séculos depois. Homero foi um desses, há
mais de dois milênios atrás. Uma de suas mais famosas passagens vem da Odisséia, quando Ulisses pede para ser amarrado ao mastro de seu navio para poder ouvir os irresistíveis cantos das sereias, sem ser encantado e devorado por elas. Anterior às canetas esferográficas e aos processadores de texto, Homero tocou em uma dessas pulsões fundamentais, que nos aprisiona à nossa precária e apaixonante condição humana. A despeito de todos os avanços tecnológicos e sociais, elas devem permanecer intactas por mais uns tantos milênios.
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Quase como o Ulisses de Homero, muitas profissões foram seduzidas, nos últimos

anos, pelas encantantes melodias das novas tecnologias da comunicação e da informação.
Nos primeiros anos da década de 90, foram os profissionais da informática, fascinados pelas perspectivas de riqueza instantânea e pela indubitável aura de sabedoria.
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Depois, foi a vez
do comércio eletrônico e da “nova economia”, que embalaram sonhos de executivos e administradores e prometiam a completa transformação do mundo dos negócios.
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Mais tarde,
veio o tempo do jornalismo eletrônico, da eliminação do papel, da personalização da notícia, da entrega em tempo real. Cada um receberia somente as notícias de seu interesse, toda manhã, sem precisar procurá-las por páginas e mais páginas de papel. Informatas, especialistas em comércio eletrônico e web-jornalistas, cada um a seu tempo, tiveram seu momento de glória, de exposição, de mágica sabedoria.
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Mas... as sereias não brincam. Elas têm fome e finalmente mostraram a que vieram:
devoraram, mastigaram, deglutiram sem piedade os web-designers, executivos e jornalistas.
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A bolha estourou, centenas de bilhões de dólares viraram poeira e... o sonho aparentemente
acabou. Redescobrimos, duramente, algumas coisas que muitos acreditavam ultrapassadas.
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Em primeiro lugar, ainda gostamos, e com boas razões, de sair para fazer compras ou
sentar calmamente para ler um jornal de papel. Há outras dimensões nessas duas atividades que não a simples minimização de custos e tempo. Em segundo lugar, os “serviços grátis” eram, primordialmente, uma estratégia de marketing. As empresas querem e precisam ter resultados positivos e não há contabilidade que faça sentido sem receita. Já dadas como mortas, as grandes corporações retomaram o fôlego e compraram boa parte do que sobrou, mostrando que não estão fora de moda, frágeis ou ultrapassadas. Pelo contrário, utilizando as novas tecnologias para agilizar suas operações pelo mundo, elas acabaram sendo grandemente beneficiadas. Em terceiro lugar, com o amadurecimento da tecnologia e o desaquecimento dos ânimos, percebeu-se que a mágica da multiplicação exponencial da audiência sem custos era um equívoco técnico. Um bom exemplo é o vídeo em tempo real (streaming) em que, ao contrário da televisão, cada usuário representa custo adicional para o emissor.
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Aplicações assim exigem uma quantidade maciça de investimento capital e de
manutenção especializada, que não são baratos. Finalmente, vimos que as pessoas não querem (e não devem) passar as vinte e quatro horas do dia navegando na internet: há outras finalidades (bem mais interessantes) na existência humana.
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Ficaram algumas lições, que hoje parecem óbvias, mas que seriam consideradas retrógradas há alguns anos. Sabemos que sempre há exagero quando novas tecnologias chegam e todos temos a impressão de que elas vão varrer o antigo mundo do mapa. Freqüentemente, uns poucos ganham dinheiro e uma imensa maioria perde, diante da promessa de multiplicação milagrosa. Mas parecemos sempre esquecer de tudo isso quando deparamos com um desses momentos de deslumbramento.
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Mesmo antes de terminar a digestão dos jornalistas, as sereias recomeçaram seus
cantos. Encontraram um público numeroso e ávido por coisas novas: os educadores. Nunca se ouviu falar tanto de novas tecnologias para educação e essa prenunciada revolução tecnológica tem unido setores da sociedade que nem sempre caminham juntos: educadores, universidades públicas e privadas, empresas e governo. Novamente, vemos um discurso semelhante: tudo o que está aí será transformado, nada sobrará do mundo antigo, quem não se adaptar morrerá.
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Será que estamos diante de uma verdadeira e unificante revolução ou de mais uma
unanimidade à moda de Nelson Rodrigues1? Será que os educadores, amarrados ao mastro do navio de Ulisses, resistirão ao apelo das novas tecnologias ou acabarão encontrando nossos amigos executivos e jornalistas sendo revolvidos no estômago das sereias? E, afinal, quem são os grandes beneficiados por essas novas tecnologias? Empresas, poder público, educadores, escolas ou aquele esquecido elemento: o aprendiz?
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Texto completo disponível no site do MEC (e-proinfo)
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Publicado por F. Wilson (professor da E.M.Velho Monge)

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